Domingo, 10 de Maio de 2009
Domingo, 3 de Maio de 2009
Sábado, 2 de Maio de 2009
Domingo, 22 de Fevereiro de 2009
Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Loteria
1. Queria estar mentindo, mas tem coisas das quais nem a fama, nem a genialidade e nem tampouco os incentivos culturais nos privam, o chifre é uma delas.
2. O casamento é uma empresa. Ou melhor, ele é uma micro empresa. O problema do casamento não é a liberdade enlatada, as frases que são repetidas milhões de vezes ou a ausência da culpa (se houvesse culpa, e não mal-entendido, tudo seria mil vezes melhor). O problema é que se produz mais lixo do que amor. Duas pessoas adultas vivendo juntas conseguem produzir mais lixo do que amor.
3. Roberto Bolaño é um puta escritor. Havia muito tempo não lia algo tão bom. Agora, estou querendo ler Austerlitz, de W.G. Sebald, mas temo que na sequência terei de enfrentar o sombrio À sombra de um vulcão de Malcom Lowry.
4. Li Animais em Extinção, de Marcelo Mirisola em dois dias. Pra mim, é um livro diferente de todos os outro dele. Nem pior e nem melhor, se bem que para mim o O Azul do Filho Morto é um dos melhores livros que já li. (Li em curitiba, enquanto me escarafunchava em um quarto de pensão frio, sem comida, do jeito que a literatura lugar-comum adora). Foi o Arhtur Tuoto que me emprestou. Saudades do Arthur gaguejando e fugindo do meu sentimentalismo magnético.
5. Raduan Nassar ainda é, para mim, o maior escritor brasileiro vivo. A sua sorte é que parou de escrever e foi criar coelhos. Sua sorte também, que foi adaptado por Luis Fernando Carvalho, que pensa visualmente como poucos, e tem um estilo rural, digamos assim.
6. Por falar em adaptações, agora que trabalho em livraria, sei que um livro não existe, ou quase, se não estiver prestes a virar filme. A grande sacada, a mina de ouro é você escrever uma história, claro, antes você tem que ter um projeto, que lhe renda um filme. Não requer muito esforço, e você ainda pode ser confundido com um gênio se, em entrevistas, citar referências como Dostoievski e Kafka.
7. Lembre-se sempre de Louis-Ferdinand Céline. A sua raiva e a sua covardia. A sua falsidade e o seu medo. A forma como ele cuspia tudo o que lhe vinha a mente, e depois negava tudo. A forma como ele confessava que se não precisasse pagar suas contas, rodeado de cães e afeito a papagaios, na lama, não escreveria mais sequer uma linha, que não daria mais chance aos chimpanzés. A forma como era genial, como se arrebental desde o cu até o anjo, e suportou o barulho do trem embutido em sua cabeça, e ele não era nada, a não ser um cretino nazista, perseguido e chamado de filho-da-puta, asqueroso e nojento, pelas vacas alemãs, e polacas e princesas e condessas eslováquias. Lembre-se que o Sam Shepard, num conto, se lembra de Céline, e é disso que tem de se lembrar, de você, e do seu avô, os dois deitados no chão, sobre o carpete coberto de poeira, e os homens da mudança levando tudo embora, e houve aquele momento infernal em que você, pensou, agora posso ir embora e deixá-lo aqui, e você quase caiu quando tentou levantar o seu avô e ele era pesado demais e vocês dois quase caíram, foi na verdade o medo que te fez manter os dois em pé.
2. O casamento é uma empresa. Ou melhor, ele é uma micro empresa. O problema do casamento não é a liberdade enlatada, as frases que são repetidas milhões de vezes ou a ausência da culpa (se houvesse culpa, e não mal-entendido, tudo seria mil vezes melhor). O problema é que se produz mais lixo do que amor. Duas pessoas adultas vivendo juntas conseguem produzir mais lixo do que amor.
3. Roberto Bolaño é um puta escritor. Havia muito tempo não lia algo tão bom. Agora, estou querendo ler Austerlitz, de W.G. Sebald, mas temo que na sequência terei de enfrentar o sombrio À sombra de um vulcão de Malcom Lowry.
4. Li Animais em Extinção, de Marcelo Mirisola em dois dias. Pra mim, é um livro diferente de todos os outro dele. Nem pior e nem melhor, se bem que para mim o O Azul do Filho Morto é um dos melhores livros que já li. (Li em curitiba, enquanto me escarafunchava em um quarto de pensão frio, sem comida, do jeito que a literatura lugar-comum adora). Foi o Arhtur Tuoto que me emprestou. Saudades do Arthur gaguejando e fugindo do meu sentimentalismo magnético.
5. Raduan Nassar ainda é, para mim, o maior escritor brasileiro vivo. A sua sorte é que parou de escrever e foi criar coelhos. Sua sorte também, que foi adaptado por Luis Fernando Carvalho, que pensa visualmente como poucos, e tem um estilo rural, digamos assim.
6. Por falar em adaptações, agora que trabalho em livraria, sei que um livro não existe, ou quase, se não estiver prestes a virar filme. A grande sacada, a mina de ouro é você escrever uma história, claro, antes você tem que ter um projeto, que lhe renda um filme. Não requer muito esforço, e você ainda pode ser confundido com um gênio se, em entrevistas, citar referências como Dostoievski e Kafka.
7. Lembre-se sempre de Louis-Ferdinand Céline. A sua raiva e a sua covardia. A sua falsidade e o seu medo. A forma como ele cuspia tudo o que lhe vinha a mente, e depois negava tudo. A forma como ele confessava que se não precisasse pagar suas contas, rodeado de cães e afeito a papagaios, na lama, não escreveria mais sequer uma linha, que não daria mais chance aos chimpanzés. A forma como era genial, como se arrebental desde o cu até o anjo, e suportou o barulho do trem embutido em sua cabeça, e ele não era nada, a não ser um cretino nazista, perseguido e chamado de filho-da-puta, asqueroso e nojento, pelas vacas alemãs, e polacas e princesas e condessas eslováquias. Lembre-se que o Sam Shepard, num conto, se lembra de Céline, e é disso que tem de se lembrar, de você, e do seu avô, os dois deitados no chão, sobre o carpete coberto de poeira, e os homens da mudança levando tudo embora, e houve aquele momento infernal em que você, pensou, agora posso ir embora e deixá-lo aqui, e você quase caiu quando tentou levantar o seu avô e ele era pesado demais e vocês dois quase caíram, foi na verdade o medo que te fez manter os dois em pé.
Domingo, 25 de Janeiro de 2009
Dez passos rumo ao desprestígio
Um texto que achei por acaso e que faz pensar um pouco no rumo das coisas. Mal conhecia o autor, o crítico Alcir Pécora, a não ser por uma crítica que li sobre o último livro do Lourenço Mutarelli e que concordei em alguns pontos. É importante dizer, e está nítido logo no começo do texto, que se trata de algo escrito em 2007. E isso não muda em nada a atualidade da sua mensagem.
Tendências do ano que se encerra fortalecem impressão de que o mundo literário está perdendo sua representatividade
Alcir Pécora
Repassando 2007 mentalmente, me vieram à cabeça as seguintes tendências no campo da literatura, umas novas, outras que só confirmam as observadas nos anos mais recentes:
1. A proliferação de Flips, Flaps, Flops, Baladas e Copas Literárias, e até Raves Culturais, nas quais a literatura aparentemente se afirma como evento globalizado de massa ou motivo de festa popular, associada a fenômenos alegadamente deleitosos como batuque, botequim, noitada, e, por que não?, celebridades, pois nem elas querem ficar por fora da grande “novidade” da leitura, assim como os novos “leitores” não querem deixar de tirar uma lasquinha ao vivo de seu astro, que digo?, de seu “autor favorito”. Dessa tendência, a pergunta relevante é saber em que medida a imaginação da literatura, trabalhada pelo marketing dito “cultural”, pode contribuir para incrementar o hábito festeiro, pois a questão contrária, isto é, de que modo a festa pode contribuir para a literatura, é apenas uma piada de salão.
2. A afirmação dos concursos literários, agora expandidos até para dentro da universidade, os quais, sob a intenção declarada de promover a literatura e descobrir novos talentos, acabam por premiar o mediano - o que há de mais intolerável em literatura, segundo Horácio -, pois os mais diferentes sistemas de votação, quando não são farsas descaradas em favor de amigos, favorecem os títulos que mais aparecem nas listas, em detrimento daqueles títulos que, por ser de difícil assimilação ou de pouco consenso, e, portanto, com alguma chance de apresentar interesse, jamais obtêm as médias da premiação. Ou seja, um concurso, a não ser por azar, só premia o premiável, que é um outro nome para o medíocre.
3. A implantação definitiva da ciberliteratura, atualmente já escrita com “i” e pronunciada do mesmo jeito, na qual os autores jovens, afetos a computadores e informática, supostamente deram de ombros às recusas de publicação das editoras tradicionais ou às críticas caretas dos velhos críticos e se lançaram de cabeça na internet, sendo lidos pelos seus amigos, pela sua comunidade, e até pela parcela dos velhos críticos desejosos de continuar eternamente jovens. Dentre estes, há duas tendências: a dos que acham que a ciberliteratura é uma nova forma de erudição, pois os “jovens internautas” emulam os grandes autores da literatura brasileira e mundial, e a dos que pensam que a “explosão” das novas linguagens produz um tal frenesi semiótico que nada se pode dizer desses autores, senão estar atônito a admirar a coragem com que montam o cavalo xucro das novas tecnologias.
4. A transferência dos reality shows da TV para os best-sellers das editoras mais aventureiras, que usam seus olheiros para descobrir “testemunhos” de participantes de toda forma de vida secreta, marginal, imoral, cujos relatos despudoradamente crus e confessionais excitam a imaginação dos leitores fugazes da classe média, que tudo o que conhecem de excessivo, por experiência própria, é trabalho e trânsito. Nesta tendência, têm lugar destacado as confissões de prostitutas, de traficantes descolados em sociologia, e, acima de todos, as confissões sexuais de adolescentes perdidas num mundo cheio de confusão e ecstasy. Se o primeiro item desta lista promete que literatura também é festa, este evidencia que ela, potencialmente, é também esbórnia, bandalheira, mundo-cão - infelizmente, desta vez, sem a trilha sonora de Riz Ortolani.
5. A volta da velha noção de “geração”, a qual, depois de ter logrado um bem-sucedido hype na Vila Madalena com a invenção da saudosa “geração 90”, presta-se ainda a um tour de force para requentar o mesmo, seja trocando cada vez mais velozmente os seus algarismos (“00”, “0.5”), seja postulando a geração “entre séculos”, ou até a geração “não-geração”. Tudo para assegurar que haja alguma movimentação literária fora da exigência de inovação inerente ao campo literário, ou para forjar um atalho que submeta a literatura à idade dos seus praticantes, uma vez que parece impossível fazê-lo por meio do nível da sua criação.
6. A multiplicação de livros com testemunhos tocantes em zonas de conflito do mundo globalizado, onde cachorrinhos, livrarias, pipas e outros objetos amigáveis reencontram um hálito de humanidade em situações brutais de guerras. Nesses relatos, os elementos tribais em conflito ganham toques pitorescos e culturais e os paradoxos e contradições dos interesses do capital internacional oferecem rica oportunidade para que os ocidentais céticos ou cínicos redescubram a riqueza e a esperança “pós-humanas” escondidas no mundo primitivo.
7. O uso da literatura como repertório de narrativas edificantes, figuras comoventes e sentenças judiciosas para auxílio da filosofia em situações que demandem a adesão imediata do ouvinte não especializado, como no caso exemplar de programas de TV, onde filósofos sem preconceitos em relação à grande mídia se esforçam para ajudar o cidadão comum a encontrar a luz compreensiva da... cultura.
8. O uso da literatura como repertório de narrativas, figuras e sentenças de impacto para uso de nietzschianos e deleuzianos desbundados, que acham que o que realmente importa, mais do que os estudos de Filosofia e Literatura, é a Vida, ela mesma, cuja logogenia multívoca, pulsando nos devires, é inapreensível por meras disciplinas acadêmicas. Contra o estudo árido e estéril, a Vida latente na literatura da rua, fonte privilegiada de hibridismos culturais, pode prover a filosofia da sensualidade e fluidez do papo-cabeça.
9. No âmbito da crítica universitária, a tendência mais notável, que entra em cena pisando firme sobre a antes obrigatória modéstia afetada, é a autopromoção, que faz de cada pesquisador um microempresário, com um vibrante e crescente repertório de truques: a “autocitação”; os quotation-buddies; a disposição de “formar quadros”, em vez de simplesmente dar aulas; a implantação de “linhas de pesquisa”, em vez do mero estudo da matéria, e, de modo genérico, a inflação do currículo, ou, para os íntimos, a turbinagem do Lattes -, por exemplo, com a organização de livros com artigos de amigos, que ninguém leu, nem quer ler, nem vale a pena ler, sem nenhuma relação entre si a não ser a irrelevância hiperprodutiva. Variante do item é a publicação de livros de homenagens a professores, os quais, mais ou menos constrangidos pelas exéquias precoces, são obrigados a se transferir para o limbo olímpico. Mais constrangidos ficariam se adivinhassem que a motivação derradeira das “homenagens” é o esforço de obter publicações do grupo 1 da Capes, e, por conseguinte, arrancar boas notas para seu programa de pós, o que não deixa de dar certa nota cívica ao oportunismo.
10. Ainda no âmbito da crítica universitária, o dernier cri é dado pela autonomização de um campo de pensamento sobre a literatura que pode se dispensar da literatura, isto é, um campo que se afirma como teoria pura, independente da literatura, assim como da filosofia. Com balizas atribuídas a autores como Benjamin, Adorno, Derrida, Lacan, Lévinas, Habermas, Jameson, Agamben, etc. , o novo campo garante que não há privilégio maior para a literatura do que fornecer modelos de reflexão para a “teoria”.
Em conjunto, todos os dez itens, em maior ou menor grau, com mais ou menos euforia, apontam para um mesmo ar do tempo em que se consolida um enorme desprestígio da literatura como campo de pensamento e cultivo, de modo que, para reanimá-la de seu túmulo, é preciso sacudi-la com festas, cortejá-la com prêmios, atualizá-la com computadores, torná-la sexualmente atraente e visualmente apelativa, descobri-la índice de partido jovem, levantá-la como bandeira da paz e amor em meio à guerra, vibrá-la sentenciosa e edificante, eletrizá-la de vitalismo, inflá-la com índices das agências de fomento, e, por fim, embora o desprestígio não dê sinal de ter um fim, ostentá-la como exemplo de repertório empírico à disposição de uma metalinguagem que lhe é vastamente superior. Tudo somado, fica bem claro que literatura, hoje, vive aquilo que os americanos chamam de “downhill”, e nós, em tradução grosseira, de descida da rampa. Caso o diagnóstico pareça demasiado duro a espíritos sensíveis e esperançosos, o desprestígio sempre poderá ser traduzido por superprestígio, à maneira dialética da bossa nacional.
Alcir Pécora é professor livre-docente de Teoria e Crítica Literária e diretor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicam
Tendências do ano que se encerra fortalecem impressão de que o mundo literário está perdendo sua representatividade
Alcir Pécora
Repassando 2007 mentalmente, me vieram à cabeça as seguintes tendências no campo da literatura, umas novas, outras que só confirmam as observadas nos anos mais recentes:
1. A proliferação de Flips, Flaps, Flops, Baladas e Copas Literárias, e até Raves Culturais, nas quais a literatura aparentemente se afirma como evento globalizado de massa ou motivo de festa popular, associada a fenômenos alegadamente deleitosos como batuque, botequim, noitada, e, por que não?, celebridades, pois nem elas querem ficar por fora da grande “novidade” da leitura, assim como os novos “leitores” não querem deixar de tirar uma lasquinha ao vivo de seu astro, que digo?, de seu “autor favorito”. Dessa tendência, a pergunta relevante é saber em que medida a imaginação da literatura, trabalhada pelo marketing dito “cultural”, pode contribuir para incrementar o hábito festeiro, pois a questão contrária, isto é, de que modo a festa pode contribuir para a literatura, é apenas uma piada de salão.
2. A afirmação dos concursos literários, agora expandidos até para dentro da universidade, os quais, sob a intenção declarada de promover a literatura e descobrir novos talentos, acabam por premiar o mediano - o que há de mais intolerável em literatura, segundo Horácio -, pois os mais diferentes sistemas de votação, quando não são farsas descaradas em favor de amigos, favorecem os títulos que mais aparecem nas listas, em detrimento daqueles títulos que, por ser de difícil assimilação ou de pouco consenso, e, portanto, com alguma chance de apresentar interesse, jamais obtêm as médias da premiação. Ou seja, um concurso, a não ser por azar, só premia o premiável, que é um outro nome para o medíocre.
3. A implantação definitiva da ciberliteratura, atualmente já escrita com “i” e pronunciada do mesmo jeito, na qual os autores jovens, afetos a computadores e informática, supostamente deram de ombros às recusas de publicação das editoras tradicionais ou às críticas caretas dos velhos críticos e se lançaram de cabeça na internet, sendo lidos pelos seus amigos, pela sua comunidade, e até pela parcela dos velhos críticos desejosos de continuar eternamente jovens. Dentre estes, há duas tendências: a dos que acham que a ciberliteratura é uma nova forma de erudição, pois os “jovens internautas” emulam os grandes autores da literatura brasileira e mundial, e a dos que pensam que a “explosão” das novas linguagens produz um tal frenesi semiótico que nada se pode dizer desses autores, senão estar atônito a admirar a coragem com que montam o cavalo xucro das novas tecnologias.
4. A transferência dos reality shows da TV para os best-sellers das editoras mais aventureiras, que usam seus olheiros para descobrir “testemunhos” de participantes de toda forma de vida secreta, marginal, imoral, cujos relatos despudoradamente crus e confessionais excitam a imaginação dos leitores fugazes da classe média, que tudo o que conhecem de excessivo, por experiência própria, é trabalho e trânsito. Nesta tendência, têm lugar destacado as confissões de prostitutas, de traficantes descolados em sociologia, e, acima de todos, as confissões sexuais de adolescentes perdidas num mundo cheio de confusão e ecstasy. Se o primeiro item desta lista promete que literatura também é festa, este evidencia que ela, potencialmente, é também esbórnia, bandalheira, mundo-cão - infelizmente, desta vez, sem a trilha sonora de Riz Ortolani.
5. A volta da velha noção de “geração”, a qual, depois de ter logrado um bem-sucedido hype na Vila Madalena com a invenção da saudosa “geração 90”, presta-se ainda a um tour de force para requentar o mesmo, seja trocando cada vez mais velozmente os seus algarismos (“00”, “0.5”), seja postulando a geração “entre séculos”, ou até a geração “não-geração”. Tudo para assegurar que haja alguma movimentação literária fora da exigência de inovação inerente ao campo literário, ou para forjar um atalho que submeta a literatura à idade dos seus praticantes, uma vez que parece impossível fazê-lo por meio do nível da sua criação.
6. A multiplicação de livros com testemunhos tocantes em zonas de conflito do mundo globalizado, onde cachorrinhos, livrarias, pipas e outros objetos amigáveis reencontram um hálito de humanidade em situações brutais de guerras. Nesses relatos, os elementos tribais em conflito ganham toques pitorescos e culturais e os paradoxos e contradições dos interesses do capital internacional oferecem rica oportunidade para que os ocidentais céticos ou cínicos redescubram a riqueza e a esperança “pós-humanas” escondidas no mundo primitivo.
7. O uso da literatura como repertório de narrativas edificantes, figuras comoventes e sentenças judiciosas para auxílio da filosofia em situações que demandem a adesão imediata do ouvinte não especializado, como no caso exemplar de programas de TV, onde filósofos sem preconceitos em relação à grande mídia se esforçam para ajudar o cidadão comum a encontrar a luz compreensiva da... cultura.
8. O uso da literatura como repertório de narrativas, figuras e sentenças de impacto para uso de nietzschianos e deleuzianos desbundados, que acham que o que realmente importa, mais do que os estudos de Filosofia e Literatura, é a Vida, ela mesma, cuja logogenia multívoca, pulsando nos devires, é inapreensível por meras disciplinas acadêmicas. Contra o estudo árido e estéril, a Vida latente na literatura da rua, fonte privilegiada de hibridismos culturais, pode prover a filosofia da sensualidade e fluidez do papo-cabeça.
9. No âmbito da crítica universitária, a tendência mais notável, que entra em cena pisando firme sobre a antes obrigatória modéstia afetada, é a autopromoção, que faz de cada pesquisador um microempresário, com um vibrante e crescente repertório de truques: a “autocitação”; os quotation-buddies; a disposição de “formar quadros”, em vez de simplesmente dar aulas; a implantação de “linhas de pesquisa”, em vez do mero estudo da matéria, e, de modo genérico, a inflação do currículo, ou, para os íntimos, a turbinagem do Lattes -, por exemplo, com a organização de livros com artigos de amigos, que ninguém leu, nem quer ler, nem vale a pena ler, sem nenhuma relação entre si a não ser a irrelevância hiperprodutiva. Variante do item é a publicação de livros de homenagens a professores, os quais, mais ou menos constrangidos pelas exéquias precoces, são obrigados a se transferir para o limbo olímpico. Mais constrangidos ficariam se adivinhassem que a motivação derradeira das “homenagens” é o esforço de obter publicações do grupo 1 da Capes, e, por conseguinte, arrancar boas notas para seu programa de pós, o que não deixa de dar certa nota cívica ao oportunismo.
10. Ainda no âmbito da crítica universitária, o dernier cri é dado pela autonomização de um campo de pensamento sobre a literatura que pode se dispensar da literatura, isto é, um campo que se afirma como teoria pura, independente da literatura, assim como da filosofia. Com balizas atribuídas a autores como Benjamin, Adorno, Derrida, Lacan, Lévinas, Habermas, Jameson, Agamben, etc. , o novo campo garante que não há privilégio maior para a literatura do que fornecer modelos de reflexão para a “teoria”.
Em conjunto, todos os dez itens, em maior ou menor grau, com mais ou menos euforia, apontam para um mesmo ar do tempo em que se consolida um enorme desprestígio da literatura como campo de pensamento e cultivo, de modo que, para reanimá-la de seu túmulo, é preciso sacudi-la com festas, cortejá-la com prêmios, atualizá-la com computadores, torná-la sexualmente atraente e visualmente apelativa, descobri-la índice de partido jovem, levantá-la como bandeira da paz e amor em meio à guerra, vibrá-la sentenciosa e edificante, eletrizá-la de vitalismo, inflá-la com índices das agências de fomento, e, por fim, embora o desprestígio não dê sinal de ter um fim, ostentá-la como exemplo de repertório empírico à disposição de uma metalinguagem que lhe é vastamente superior. Tudo somado, fica bem claro que literatura, hoje, vive aquilo que os americanos chamam de “downhill”, e nós, em tradução grosseira, de descida da rampa. Caso o diagnóstico pareça demasiado duro a espíritos sensíveis e esperançosos, o desprestígio sempre poderá ser traduzido por superprestígio, à maneira dialética da bossa nacional.
Alcir Pécora é professor livre-docente de Teoria e Crítica Literária e diretor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicam
Sábado, 22 de Novembro de 2008
Cheiro de Leite, Cheiro de Café - 2

Está uma história que mandei para a revista Subversos. Estou postando aqui porque não foi selecionada. Estava com uma vontade imensa de mandar os cretinos tomarem no cu, mas isso não vai fazer a história ser publicada. De qualquer forma a versão que postada neste e no post anterior é apenas um ensaio para uma história de 4 páginas. Aproveitem. Não responderei perguntas sobre o significado da história.
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